quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Outro bicho

Realidade
Malu caminhava todo o dia
Verdade
Malu catava comida no lixo.

Um dia
Malu conheceu Bandeira
E Bandeira viu outro bicho.

O bicho não era um.
Não eram dois.
Não eram três.

O bicho, meu Deus, eram milhões.

domingo, 11 de outubro de 2009

LSD (curta-teatro)

Este é um esboço, em vídeo.
.
video

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

LSD (curta-teatro)

1º ato
(Fausto entra em cena, é a sala da sua casa, está irritado, ao fundo toca a música Gota d'Água, de Chico Buarque)
─ Pela manhã: labor; à tarde, serviço; à noite, desilusão.
Narrador: Lei do cotidiano: serões de doutrinação.

(Nesse momento entram alguns colegas, um deles canta a música Alegria, Alegria, de Caetano Veloso e lhe oferece um microponto de LSD. Fausto aceita)
─ Pela manhã: labor; à tarde, sofrimento; à noite: dominações.
Narrador: Luta do cotidiano: sacrifícios e danações.

(fim do 1º ato)

2º ato
(Fausto entra em cena, é um escritório, está estranho, mas sorri, ao fundo toca a música Lucy in the sky with diamonds, dos Beatles)
─ Pela manhã, langor, à tarde, sensações; à noite, ─ Demais!
Narrador: Lenitivo do cotidiano: sentidos divinais.
(Apagam-se as luzes)

(fim do 2º ato)

Último ato
Narrador: Lúgubres Semanas Depois...
(Acendem-se as luzes, Fausto está deitado, ao fundo toca a música Toccata e Fuga, de Bach)

Pela manhã, letargia; à tarde, sustos; à noite, desatino.
Narrador: Lampejos do cotidiano: sinais do destino.

(Apagam-se a luzes, mas logo se acendem. Fausto continua deitado, agora sentindo dores abdominais e gritando muito.)

Pela manhã, lágrimas; à tarde, suspiros; a noite dura.
Narrador: lírios, sepulcro e desventura.

(Fecham-se as cortinas)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Vera

_____Sentia ainda a fúria, ondas de ódio inundavam-lhe o corpo e tornavam-lhe a alma ofegante. Seus olhos, voltados para o alto, vociferavam ao destino, maldiziam o próprio destino. Seu corpo transpirava e um tremor febril dominava-lhe as ações.
_____Olhou para o chão, suor e lágrimas confundiam o seu olhar. Limpou os olhos ─ o peito arfava, as mãos tremiam nervosas ─ e viu o corpo num chão imundo de sangue e violência. Esboçou um sorriso estranho, misto de satisfação e repúdio. A imobilidade daquele corpo arrefeceu-lhe os ânimos. Fechou os olhos, uma calma invadiu-a de repente. Lembrou-se das suspeitas dos últimos dois anos e das investigações dos últimos meses. Cada nova descoberta confirmava a dúvida e acrescentava um tijolo em seu muro de ódio e afastamento.
_____Sentou-se próxima ao cadáver e olhava para aqueles olhos incrédulos e sem vida. Pegou o celular e discou para a polícia. Esperou alguns segundos... uma voz a atendeu.
_____Esperou com serenidade, quase indiferente, e informou:
_____─ Meu nome é Vera, tenho dezesseis anos. Quero comunicar um assassinato. Acabei de matar a mulher que me sequestrou ainda na maternidade. Ao se fazer passar por minha mãe durante todo esse tempo, essa mulher fez de mim uma mentira. Por favor, anote aí o endereço...

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Canção do exílio

Roubaram-me de ti,
tiraram-te de mim;
se ausente estou por fim,
presente não sou aqui.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

evolução do homem capital

Máquina primeiro;
Adiante, coisa;
Logo, sucata.

sábado, 25 de julho de 2009

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O velho do restelo (revisitado)

"Mas um velho, de aspecto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente..."
Os lusíadas, de Camões
.
_____Imagine o Titanic, mas diferente, agora partindo de Portugal. Lembra-se daquela cena: pessoas no navio se despedindo das que estavam em terra? No cais, Jane, no meio da multidão ─ crianças, mulheres e idosos ─; na nave, Herondy, ambicioso e inquieto.
Jane:
_____─ "Não se vá, não me abandone, por favor...."
Herondy:
_____─ "É melhor que eu vá embora..."
Jane:
_____─ "Não se vá! Me dê uma chance outra vez, daqui pra frente tudo vai mudar..."
_____Mas Herondy estava irredutível, como todos os que partiam em busca de uma nova vida, de riquezas e de novos mundos. Assim também pensava Leonardo DiCaprio (coitado: mal sabia ele que morreria no mar).
_____Ansiedade e esperança eram os sentimentos da tripulação; em terra, receio e desamparo.
_____Hora da partida, as luzes vermelhas se acendem. Torben Grael olha para Vasco da Gama. Ambos esperam a hora da largada.
_____De repente, no meio do povo, "de aspecto venerando", o mestre dos magos. Todos o olham com respeito e esperam sua palavra. Desligam-se os motores, modelos pegam guarda-sóis e protegem os dois comandantes, já acomodados em cockpit. O mestre dos magos aparece num telão:
_____─ Homens insensatos, saem em busca de outras terras e deixam a própria casa desamparada. Que podemos nós, velhos, mulheres e crianças contra as forças do mal? Ouçam o que lhes digo: talvez essa nau em que estão não afunde, mas Portugal, sim.
_____Tentou continuar, mas, súbito, cortaram o áudio do velho e a imagem do telão se abriu numa panorâmica belíssima.
_____Religam-se os motores, o barulho é ensurdecedor.
_____Titanic parte a Caminho das Índias.

Nota do autor:

_____Se um dia, por este texto, eu for premiado ou me fizerem um elogio (coisas de que muito duvido), direi:
_____─ Dedico este prêmio (ou elogio) ao inventor da metalinguagem – processo que nos (s)ocorre, com relativa frequência, nos momentos difíceis: em que as musas abandonam seus poetas, as histórias se esvaziam, as insônias não produzem e as criaturas nascem mortas. Obrigado!

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Cale-se

Se nesta vida
você não tem
um amigo
um amor,
ah!
cale-se,
bebendo sua dor.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Poema infantil 08

__---__aroma
_-visgo ou orbe
---_corpo orto
__---___alma
_---natural
--de uma flor

quarta-feira, 15 de julho de 2009

SOS casulo

Nesta célula estamos minha família e eu
há tempos náufragos sociais
resguardados do mundo e prisioneiros em nosso bunker

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Papo cabeça (ou coisa de grego)

Parmênides:
─ Cara, você é.
Heráclito:
─ Saca só. Não sou, estou.
Parmênides:
─ Como é?
Heráclito (explicando e se despedindo):
─ Fui.

Águas de Heráclito

Todos os meses pago prestações,
mas nunca é o mesmo pagameno:
cada prestação paga
me aproxima mais do fim desta dí-
vida.

Um dia,
vi pessoas que sequer imaginava existirem;

no outro,
fiz coisas que não sabia possíveis.

É o fim dos hábitos, é o fim dos vícios.
A repetição não existe.

E ontem eu sei hoje que amanhã eu não serei eu.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Dialética

_____Planejei meu futuro, os meus quarenta anos. Diziam que a vida começava ali e eu, aos dezoito, já vislumbrava com precisão todos os detalhes desse início.
_____Teria uma família e seria professor. Já sabia que não era uma profissão tão bem remunerada quanto outras, mas prometi a mim mesmo não vender meus sonhos por um punhado de dólares. Teria uma casinha, nossos livros, boa música, diálogo e uma rede. Às vezes comeríamos arroz com feijão, à luz de velas. Nós nos reuniríamos para ouvir e contar histórias. Saberíamos ouvir uns aos outros e o segredo da nossa felicidade seria o de não existir segredo para a nossa felicidade.
_____Esse seria o amanhã. O início da minha vida...
_____...
_____Hoje tenho quarenta anos. Feliz em todos os seus detalhes e exatamente como planejei, o amanhã chegou.
_____Mas tenho saudade daquele meu futuro.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Poema infantil 07

Às vezes eu fico triste,
mas sei que há Quem me zele.
Sim, creio que Deus existe,
mas não tenho medo dEle.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Poema infantil 6

Raios e trovões

Raio é luz é ligeiro.
Trovão é... espera... e estrondo.

Mamãe diz que os raios são perigosos,
mas é dos trovões que eu tenho medo.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Amor possessivo

Eu sou teu.
Tu és minha.

Se somos nossos,
tu tens a mim
e eu te possuo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Frustração

_____Augusto esperava, ansioso, duas notícias que lhe iam mudar a vida. A primeira, a conquista da vaga como gerente de marketing de uma multinacional; a segunda, o sim para o pedido de casamento que faria a sua noiva, Júlia, naquela noite, durante o jantar. "As duas Virgílias", pensou, lembrando-se de sua obra machadiana preferida.
_____Duas conquistas que vinha perseguindo de perto. A empresa, namorava-a há anos. Fez especializações, fez mestrado e cursos de marketing pessoal. Deixava curriculuns insistentemente. Um dia, soube da disponibilidade. Vinte concorrentes, uma vaga. Sabia do seu potencial. Realizou todas as provas com convicção, destacou-se no curso realizado pela empresa, teve ótimo desempenho durante a entrevista. Esperava o resultado, que chegaria por carta na tarde do dia em que faria o pedido de casamento. "As duas Virgílias", sorriu.
_____A noiva era o seu principal investimento. Linda, simpática, bonita, carinhosa, inteligente, rica e arredia. O casamento coroaria sua dedicação, seu desempenho, empreendimento.
_____Às 16h, chegou a carta. O coração acelerou, sentiu um misto de apreensão e curiosidade, medo e euforia. Soube refrear as emoções, decidiu abri-la durante o jantar. Desejava acumular sentimentos. Tornar simultâneos fatos inesquecíveis. Ligou para a noiva, confirmou local e horário. Pegou-a pontualmente. Foram ao restaurante, pediu o jantar e a mão...
_____Júlia mostrou surpresa, mas já ia responder. Augusto pediu que esperasse. Queria saber as duas respostas simultaneamente. Pegou a carta, foi desdobrando devagar e disse à noiva:
_____─ Diga-me agora.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Poema a prazo

1ª parcela
.
Não pague adiantado
Espere 30 dias;
Saboreie de lado a lado
Poema é também mercadoria.
.
2ª parcela
.
Já consumiu este produto?
Isto pertence a você.
Ou não deixe de pagá-lo.
Ou estará no SPC.
.
3ª parcela
.
Nesta coisa ponho o nome,
logo me leva aonde for;
não se preocupe com a autoria,
pense em mim como credor.
.
ùltima parcela
.
Poesia é o meu produto;
E é produto capital.
Se mãe vende a própria filha,
eu é que não faço mal.

sábado, 30 de maio de 2009

Impulso

...estala,
nestas palavras avulsas,
a poesia.

E pulsa... pulsa... pulsa...

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Raiva (poema interjetivo)

Grrr!… blrr!… rah!…
Argh!… rrr!… bah!…

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sobre cães e homens

_____Era noite, um frio intenso, caía uma garoa fina. Um cão de rua, deitado ali, em seu canto, e aquecido por sua própria pelagem.
_____Em outro canto, um homem e um menino, cobertos por uma única folha do jornal Consciência Cidadã.
_____O cão observava os dois – com um olhar companheiro que só alguns cães sabem ter – e lamentava a sorte desses animais.

Monodiálogos (mais do mesmo, em síntese)

______Um e outro há muito não se viam:
Um:___─ Tudo bem?
Outro: _─ Tudo bem?
______E cada um seguiu seu próprio caminho...

domingo, 24 de maio de 2009

Romance (Poema infantil 5)

Omar amava o mar;
por Roma amor sentia.

Por amor, Omar mora em Roma,
Mas o mar em Roma não mora.

sábado, 23 de maio de 2009

Dual (Poema Infantil 4)

Duda era doida por Dudu.
Dudu, por ela, era doido.

Elos nos dedos. Duplo desejo.
Casaram-se, sem dúvida.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Em trânsito

_____Em 31 de dezembro de 2008, pela manhã, o professor de português, purista e conservador – daqueles que exigem pingo em “j” (como esse!) –, entrou em um hipermercado e se deparou, bem à porta, com uma lista de produtos. Na lista, linguiça. Desse jeito, despudoradamente sem trema, transgressora e desrespeitosa. Torceu o nariz, tomou-o de sobressalto o desassossego, fez sua compra indignado, a imagem daquela mutilação gráfica sobrepunha-se a tudo e não o deixava. “A língua portuguesa é um dos nossos símbolos nacionais, um santuário, é unidade cultural manifesta, maltratá-la é maltratar-se”, pensava em mais um arrebatamento intolerante.
_____Mas o tempo é remédio para todos os males e arrefeceu-lhe os ânimos. Esqueceu-o a intolerância.
_____No dia seguinte, precisou voltar ao hipermercado – o mesmo do ano anterior – e encontrou-o aberto. À porta, a mesma lista de produtos. Na lista, linguiça. Assim mesmo, sem trema, como reza o novo acordo ortográfico. Sentiu-se bem, caminhou tranquilo, e sorriu realizado, convicto de que às vezes, sim, a montanha vai a Maomé.

domingo, 17 de maio de 2009

Náusea 2 ou haicai de natureza política

Sob um mar de rosas
sabia como esconder
o seu mar de lama.

sábado, 16 de maio de 2009

Náusea

_____Sozinho em sua cobertura, olhava pela janela. Sentia-se senhor de todas as coisas e de todos os seres. Deputado federal por dois mandatos e agora senador, sabia que era bem sucedido. Nunca poupara esforços para conquistar o sucesso. À procura de sua própria felicidade, trapaceou, subornou, explorou informações privilegiadas, licitações ilícitas, negociações escusas:
_____─ Nunca poupara esforços! - dizia a si mesmo, orgulhoso de seu império.
_____Serviu-se de mais uma taça de vinho... esticou-se em sua poltrona... tomado de languidez... sorriu confiante e um mal-estar súbito acometeu-o! Levantou-se de sobressalto, atordoado, a taça caiu-lhe da mão, uma sensação estranha tomava conta do seu corpo, das suas entranhas, sentia-se angustiado, um aperto no peito sufocava-o, o ar faltava-lhe, suava frio mas sentia-se febril, uma palidez extrema, ondas de náusea se intensificavam, uma tosse agressiva acentuava o seu mal-estar, sentia o coração na garganta e pressentiu o vômito, que jorrou viscoso, pustulento, fétido, impregnado de toda uma vida pública corrupta. O jorro não cessava, o líquido encorpado por toda sorte de crimes pestilentos amargava-lhe a boca e impedia-lhe a respiração. Caiu prostrado sobre a poltrona e, em seu torpor, conseguiu enfim fechar os olhos...
_____Sentiu-se estranho... um sentimento de cidadania... uma angústia...
_____
_____Abriu os olhos... tomado de languidez... e viu a taça em sua mão... levantou atordoado e reconheceu, com alívio, seu império intacto...
_____Sorriu confiante e serviu-se de mais vinho...
_____A náusea não passara de um sonho ruim.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Liberdade

_____José tinha viagem marcada. "Negócios são negócios". E não podia perdê-la, não podia sequer atrasar-se. "Além disso" - desabafou em pensamento - "fico longe dessa família insuportável, opressora e parasita". Sentia-se um escravo em sua própria casa: a mulher não entendia as suas ausências (José trabalhava muito) e cobrava-lhe insistentemente mais tempo com ela e com os filhos. Ele dava-lhe explicações. À distância, por telefone, justificava a distância e contava-lhe a necessidade de negociar face a face com os clientes - "essa é a chave do sucesso" - dizia, mas a esposa, "obtusa e egoísta", não reconhecia seus esforços: "Mas não reclama do dinheiro que lhe sustenta os caprichos", o desabafo continuava. Os filhos, não os viu crescer: da filha, lembrava alguns sorrisos; do filho, pouquíssimas brincadeiras no quintal. E agora tinha em casa a mulher e esses dois estranhos, cujo benefício - único! - era o desconto no imposto de renda.
_____"Ainda me liberto", em voz alta, dentro do carro. “Um dia... a liberdade...", agora com raiva.
_____O amigo, ao volante, assustou-se:
_____─ O que é isso, José? Raiva logo cedo?! Vê se dorme um pouco, esse estresse ainda vai lhe fazer mal.
_____José riu sem graça, fechou os olhos e dormiu, um sono profundo. José sonhou com a liberdade. Sozinho... voava tranquilo... e olhava o mundo do alto e de longe... fascinavam-lhe as nuvens... a paisagem vista do céu... os pássaros... as árvores e as flores... chegava a sentir-lhes o perfume suave e arrebatador... – Livre!... este é o fascínio da liberdade: o vento no rosto... o corpo leve... o prazer sem limite...
_____Do alto... via o movimento dos carros na rodovia... o fluir contínuo que aos poucos ia se transformado em engarrafamento... “Nem em sonho estou livre disso” pensou, ciente agora do seu sonho... Todos os dias os mesmos problemas: reparos na pista, algum carro quebrado, blitz ou acidente. Seguia acompanhando a fila, interminável... De repente, uma movimentação intensa de policiais, bombeiros e curiosos chamou-lhe a atenção. Curioso, aproximou-se. Era um acidente, "gravíssimo", pensou. Tinha uma visão privilegiada e esse privilégio permitiu-lhe ver um corpo entre a ferragens de um carro. Aproximou-se ainda mais... Era o carro do amigo! Olhou entre as ferragens retorcidas e reconheceu-se entre as desfigurações...
_____A angústia tomou-o de assalto, o desespero invadiu sua alma, já não voava, corria entre as pessoas à procura de detalhes. Ouvia vozes confusas e incrédulas, sirenes das viaturas, ruídos dos metais, motores e engrenagens. Desejou acordar e tentou com toda a força de sua consciência, mas o sonho - agora pesadelo - insistia. Em seu sofrimento, José encontrou o amigo, próximo ao carro, as mãos na cabeça, os olhos no vazio, gritava e chorava copiosamente. Tentou alcançá-lo, não conseguiu. Bombeiros que seguravam o amigo pelos braços o tiraram do local. Olhou novamente para si mesmo entre as ferragens – fragmentos retorcidos de si mesmo – e entendeu definitivamente a situação...
_____Afastou-se confuso... um peso invadiu-lhe o ser... Sentou-se à beira do caminho e, alheio a todos, chorou a liberdade conquistada.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Nada

A luz se escondia atrás do mundo,
quando acordei para o dia que 'inda nem era,
no ar havia um cheiro da água inodora!
da chuva que caíra na noite anterior.
Na rua não havia ninguém e
as nuvens subjugavam os astros
─ e você, o meu pensamento.
Baixei os olhos do meu coração
e fiquei olhando o céu sem estrelas.

Reflexão

_____A consciência e a prática de não dizermos as 'verdades que não devem ser ditas' não nos tornam hipócritas, mas sociáveis.

sábado, 9 de maio de 2009

Monodiálogos

_____Trabalham juntos na mesma empresa, mas em departamentos diferentes. Um dia desses se encontraram durante o horário do café:

_____Ele: ─ Nossa! Como o café está amargo!
_____Ela: ─ Acho que eu nem deveria ter vindo hoje. Minha semana começou mal.
_____Ele: ─ Desde que mandaram a copeira embora e entrou essa funcionária nova, o café não é a mesma coisa.
_____Ela: ─ Acordei péssima... uma dor de cabeça terrível. Será que foi a discussão ontem à noite?
_____Ele: ─ Todos elogiavam a dona Maria... mesmo assim ela foi demitida. Agora sou obrigado a suportar este café insuportável.
_____Ela: ─ A discussão começou por causa de um mal entendido. Meu noivo reclamava de algo sobre eu não lhe dar atenção... não tenho certeza... mas parece-me estranho: sempre acreditei no diálogo.
_____Ele: ─ Nem sei por que fazem pesquisas nesta empresa. Parece que a opinião dos funcionários não tem valor nenhum. Você não concorda?
_____Ela: ─ Sempre ouvi o meu noivo, sempre lhe dei atenção... e agora isso...
_____Ele: ─ Eu já me cansei de dar sugestões, mas ninguém me ouve. Parece que cada um vive em seu próprio mundo.
_____Chega um terceiro funcionário.
_____Ela: ─ Assim que chegar em casa, vou ligar para o meu noivo. Quero tudo em pratos limpos... ele vai ter que me explicar direitinho...
_____Ele: ─ Quer saber? Se fizerem outra pesquisa, vou responder de qualquer jeito. Não nos dão atenção mesmo...
_____O outro: ─ Vocês viram o futebol, ontem. Que jogaço! Se meu time continuar jogando assim, vai ser campeão...
_____Ele: ─ Preciso voltar para o serviço. Alguém aqui tem de trabalhar...
_____O outro: ─ O Roballo é craque, é liso... vai ser artilheiro do campeonato. Ouçam o que estou dizendo...
_____Ela: ─ Será que ninguém reparou que esse café está amargo?!

domingo, 3 de maio de 2009

sábado, 2 de maio de 2009

________

Desassossego redundante
de um pleonasmático depressivo

Minha vida, meu existir, é um enfado... é um fastio...
via o chão... olhava o solo...
de repente, súbito,
no meio do caminho, no percurso,
um cadáver de um corpo sem vida

fedia: um mau cheiro arredio.
Extremidades retorcidas, contorcidos polos,
do corpo em decúbito
ventral, de bruços; sem voz e sem discurso.
Pensei, refleti: minha vida é essa morte repetida.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Prova de redação

_____Em 29 de abril de 2009, no colégio Nacional de Uberlândia – onde trabalho –, a amiga e professora Milena, de redação, apresentou, em sua prova bimestral, o seguinte exercício aos alunos:

Proposição para leitura e produção da Situação A

Considere o seguinte recorte:

“Andava pela rua quando de repente tropecei num pacote embrulhado em jornais. Agarrei-o vagarosamente, abri-o e vi, surpreso, que lá havia...”

Você deverá continuar o trecho acima em, no mínimo, mais dois parágrafos, constituindo um total de 15 linhas (desconsiderando a introdução)

Instruções específicas:

1. assinale a situação escolhida na folha de redação;
2. crie um título para sua narrativa;
3. copie a introdução; na sua folha de redação;
4. identifique-se adequadamente (nome, série e turma);
5. apresente um fundo moral para a sua narrativa.

_____Eu estava aplicando essa prova em uma das turmas e me deparei com essa tarefa. Achei interessante e desafiadora, talvez toda proposta de produção de texto o seja, e resolvi participar. Aí está o resultado:

Nome: Curtt
Turma: 2ª série do ensino médio
Situação escolhida: A

Titulo: É verdade!

_____Andava pela rua quando de repente tropecei num pacote embrulhado em jornais. Agarrei-o vagarosamente, abri-o e vi, surpreso, que lá havia – nu e cru – o corpo etéreo e transparente da verdade. Olhei para os lados e procurei a desconfiança nos olhos dos que passavam, mas percebi que todos estavam alheios a mim e seguiam o fluxo contínuo e automatizado de suas vidas.
_____Livrei a verdade do incômodo invólucro e deixei-a ali livre. A verdade flutuava junto ao meu peito, não se afastava de mim, seguia-me. Buscava um amigo, talvez. Deixei-me acompanhar, sentia-me diferente, feliz – Tinha encontrado a verdade!
_____A todos os lugares eu levava a minha companheira, as pessoas se impressionavam com ela, mas logo se afastavam. Os que a tocavam reclamaram de dor; os que não a tocavam disseram-se invadidos por um mal-estar, um incômodo.
_____A situação se agravou depressa: perdi meu emprego de jornalista – sugeriram que eu escrevesse contos de fadas –, perdi a vida social, minha família afastou-se. Ninguém reconhecia a minha verdade e viviam – só eu enxergava isso! – de falsas ou meias verdades. Os debates viravam conflitos; as discussões, desavenças; as amizades, contendas; o convívio, solidão.
_____Enfim, hoje ando sozinho pelas ruas, vivo do lixo e da esmola: de mim e da minha verdade, infelizmente, ninguém quer saber.
.
Moral 1: a verdade às vezes dói, às vezes incomoda.
Moral 2: a verdade é companheira.
Moral 3: os jornais podem embrulhar a verdade.
Moral 4: talvez exista mais verdade num conto de fadas do que no texto de um jornal.
Moral 5: a verdade é minha.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Amim

... de nome e de sentimento. Um dia tomei consciência de que todas as minhas ações altruístas eram um exercício honesto e exclusivo do meu egoísmo: ajudava outros a encontrar a felicidade, mas visava ao meu próprio prazer. Decidi mudar. Concentrei-me em ajudar a mim mesmo e o meu prazer duplicou.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

_____Em Dom Casmurro, Capítulo LV, Um soneto, Machado de Assis faz ao leitor a seguinte provocação:

“Pois, senhores, nada me consola daquele soneto que não fiz. Mas, como eu creio que os sonetos existem feitos, como as odes e os dramas, e as demais obras de arte, por uma razão de ordem metafísica, dou esses dous versos ao primeiro desocupado que os quiser. Ao domingo, ou se estiver chovendo, ou na roça, em qualquer ocasião de lazer, pode tentar ver se o soneto sai. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta.”

_____Obviamente, o autor faria quantos sonetos quisesse com os dois versos que criou:

“Oh Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!”, o primeiro do poema;
“Ganha-se a vida, perde-se a batalha.”, o verso final – a “chave de ouro”.

_____Fazer sonetos lhe seria fácil, mas o seu jogo era provocar, manipular as vaidades humanas, o seu prazer era fazer com que outros realizassem o que ele fingiu, com ironia e deboche, estar além da sua capacidade. Machado de Assis era um gênio, um bruxo.
_____Sim, ele está morto, mas suas genialidades e bruxarias estão vivas, por aí: o número de desocupados que encheram “o centro que falta” se aproxima, talvez, da casa do milhar, logo não serei “o primeiro”, mas, sem dúvida, mais um que se rende às manipulações machadianas.

SONETO

“Oh Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!”,
de celestes olores, de magia,
nessa doce prisão – doce clausura! –
a minha vida agora principia.

Oh! Flor do céu! Oh! Flor que me captura
os desejos. Seu olhar me desafia,
com dissimulações, com fantasia,
e da ressaca rompe-se a ternura.

Oblíquo, Capitu, é esse seu olhar
de mulher, de menina, de cigana;
ingênuo, tolo, deixo-me arrastar

pelo fervor que o olhar – tão seu – emana.
– Beije-me, Capitu! Que o amor me valha:
“Ganha-se a vida, perde-se a batalha”.

sábado, 18 de abril de 2009

Máquina mortífera

_____Strangerson era um cidadão logófago, alimentava-se de palavras, literal e vorazmente: seu corpo hidratava-se com a seiva discursiva de uma prosa consistente e elaborada, por isso frequentava simpósios, congressos e participava de qualquer conversa em que das palavras brotasse um fluido energizante e criador; lia compulsivamente os clássicos, os gênios da literatura universal, os teóricos e a crítica especializados; seu corpo se fortalecia com o novo e com o fundamento.
_____O óbvio entediava-o; o blá-blá-blá e a mesmice em diálogos eram o seu tendão de Aquiles. Exposto a eles por um tempo prolongado, morreria por inanição.
_____Strangerson tinha lá os seus caprichos, sentia prazer em implodir as colunas da certeza com sua acidez implacável e contundente. Seu discurso minava os argumentos com avidez e racionalismo instintivos, inatos e incontroláveis.
_____Por isso tinha inimigos, muitos: os que viviam do “lugar comum”, os que enriqueciam com a pregação das falsas verdades, os que reescreviam o reescrito e tantos outros seres e suas vacuidades maravilhosas.
_____Strangerson foi capturado. No cativeiro, submeteram-no à exposição continuada da programação televisa. Foi vítima da crueldade. Imobilizado, tentou resistir, mas a sucessão de programas degenerou sua mente e roubou-lhe a vitalidade corpórea. Sem consciência, seus olhos perderam o movimento e fixaram-se na tela; a partir daí a morte foi rápida: sem a capacidade de filtrar informações, entrou em transe e atingiu a catatonia. Nesse momento, começou Big Brother Brasil: não teve chance – nem precisava tanto! –, foi o golpe de misericórdia.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Depoimento

Não falarei da sua beleza incontestável,
embora a sua não seja efêmera como as outras são;
Não direi nada de suas conquistas:
sei que elas vêm em consequência dos seus esforços,
da sua dedicação e de seu talento;
Não! recuso-me a falar do sorriso, encantador por essência,
e que vela um temperamento forte e determinado;
Não falarei de nossos laços familiares,
porque não somos laços: somos nós górdios;
Não vou falar da mulher, linda e sincera, que ora nasce para o mundo;
O que direi, porque quero dizer, se resume em duas palavras:

amo você.

sábado, 4 de abril de 2009

Poema Infantil 3

Peças à beça
e quebra a cabeça
– Cabe essa! –
o moleque brada,
de quebra, a peça
do quebra-cabeça.

sábado, 28 de março de 2009

Destino

_____Carlos e Pedro se conheceram ainda jovens. Eram vizinhos desde meninos e estudaram na mesma escola, pública, até o 2º grau. Carlos se dizia idealista, Pedro, pragmático. Carlos fez cursinho – queria fazer medicina – esforçou-se muito, estudou como ninguém e conquistou uma vaga na universidade, depois de quase dois anos de sacrifícios. Pedro terminou o segundo grau, tirou carteira de motorista ainda no exército, passou de emprego em emprego e se estabeleceu, finalmente, como motorista de caminhão aos 26 anos de idade.
_____Carlos terminou seu curso e, ainda cardiologista recém-formado, conquistou respeito pelo profissionalismo e pelo trabalho comunitário que realizava nos bairros pobres da cidade.
_____Pedro também se destacava pelos sacrifícios, viajava de 13 a 15 horas por dia e sempre entregava a carga com antecedência. Mantinha-se acordado (acreditava nisso), durante as viagens, à custa de drogas – aprendeu com alguns companheiros –, mas depois de apenas três anos já recebia o maior salário entre os motoristas e era, sem dúvida, o preferido para os fretes mais importantes.
_____Carlos e Pedro não se viam há muitos anos, desde o baile de formatura, quando ainda tinham 17 anos de idade, mas se encontraram na estrada, antiga BR-28. Carlos voltava de um Congresso, e Pedro carregava uma carga importante para a empresa. Eram duas horas da tarde, Carlos preferiu não almoçar – almoçaria em casa –; Pedro tinha almoçado bem e seguia viagem. Carlos acelerou seu carro, concentrou-se na pista, que estava tranquila e pouco movimentada. O trecho de poucas curvas, o sol, o almoço e o cansaço se apoiaram nas pálpebras de Pedro, que dormiu ao volante. A carreta desgovernou-se, dobrada em L, e fechou a rodovia. Carlos não teve tempo de se desviar. O impacto, que fez Pedro – no meio do caminho – recobrar a consciência, fez Carlos perder a sua, definitivamente.
_____Dizem que do destino não se foge. Deve ser verdade.

sexta-feira, 27 de março de 2009

!

Esta é uma obra de ficção, qualquer
semelhança com nomes, pessoas ou
fatos reais é mera coincidência........


______Gabriel não pensava, vivia o prazer, intenso e imediato. Curtia o hoje, mais precisamente o agora. No auge dos seus 19 anos, não planejava o futuro e ignorava o conceito de consequência. Filho único de uma família classe média, tinha seu próprio carro – presente de aniversário – e era sustentado e protegido pelos pais. Seu lema: Sexo, Drogas & Credicard. Pegava as garotas da escola, das baladas, de programa. E não se apegava a ninguém:
______– Não existe amanhã para as relações – dizia.
______Na escola, viu Lúcia. Linda, brilho no olhar e sorriso angelical. Investiu, insistiu e conquistou. Levou Lúcia para o motel. Pegou também...
______Dessa relação, duas consequências: um prazer intenso e imediato e o nascimento de Flora, numa manhã de primavera, nove meses depois.
______Durante a gravidez, Gabriel sugeriu o aborto – sua família pagaria a intervenção –, mas o amor de mãe gritou ao coração e Lúcia deu à luz uma menina linda.
______Gabriel afastou-se, não queria compromisso e não viu a filha nascer.
______– Não existe amanhã para as relações – insistia.
______Os destinos tomaram rumos diferentes. Gabriel começou a trabalhar na empresa do pai e, 17 anos depois, continuava suas aventuras, sexuais e alucinógenas. Jamais pensou em casamento:
______– Não existe amanhã para as relações – teimava.
______Lúcia largou os estudos, mudou-se com os pais para uma outra casa, em outro bairro da cidade, e entregou-se ao trabalho e à educação da filha.
______Flora vicejou, amorosa, linda e idealista. Reconhecia o esforço da mãe e lhe agradecia com carinho, estudo e dedicação. Mas sentia saudade do pai, que nunca conhecera. Intimamente, idealizava-o, sonhava com ele. Inventava-lhe o olhar, o sorriso. Muitas vezes, chegou a encontrá-lo em pensamento.
______Nessa sexta-feira, Flora saiu com alguns amigos. Na boate, viu Gabriel e sentiu algo especial, um fascínio, uma paixão... inexplicáveis. Gabriel percebeu e investiu.
______“Não existe amanhã para as relações”, enganava-se.
______Beberam bastante e conversaram pouco. Logo foram para o motel.
______Sem saber, Flora conheceu o pai.
______Gabriel... pegou também...
______Gabriel ignorava o conceito de consequência...
______
Ignorar não é ser imune.

sábado, 21 de março de 2009

Por Jéssica e Isabelle

Na dúvida, leia o meu comentário.
Hoje é esse caminho...
........................................de encantos
que sigo por vocês... assim:
beijos de uma brisa bela em mim...

terça-feira, 17 de março de 2009

Tempos Modernos

─ Tudo está acabado entre nós. Cansei-me deste relacionamento. Quero conhecer outras pessoas. Viver outras relações.
─ Mas só nos conhecemos há cinco minutos!?

Sempre Cinderella

─ Procuro Cinderella... Onde está, você, Cinderella?
─ Estou aqui, meu amor.
─ É você?
─ Sim. Não me reconhece?
─ Não tenho certeza.
─ Mas... ontem... passamos a noite juntos...?!
─ Esqueça os sentimentalismos. Por favor, vista esse sapato.
─ Pronto...
─ Sim, é você, mulher!
─ Deixe-me entender...Você me reconheceu pelo sapato?!
─ Não se iluda: neste mundo a beleza e a identidade femininas estão exclusivamente nos acessórios.

sábado, 14 de março de 2009

Desejo realizado

___Firmo irritava-se diariamente com a programação das FMs; não suportava a mesmice das propagandas chatíssimas e insistentes, dos apresentadores boçais e das músicas (com as quais não tinha qualquer – mínima que fosse – afinidade).
___Sua saúde não era a mesma de outros tempos, tomava remédio para controlar as megatensões e a hipertensão, mas preservava com frescor o gosto por músicas de sua mocidade.
___Jamais desistia de seus propósitos e resolveu interferir, ligava todos os dias para as rádios, mas nem sempre era atendido; quando conseguia completar a ligação, pedia que tocasse uma música dOs Mutantes. Seu pedido concorria com outros dois, e perdia invariavelmente. Revoltava-se com o mau gosto da atualidade – essa juventude e seu alpiste! – pensava.
___No seu aniversário de 66 anos – sabia que era uma data especial –, ligou novamente, certo de que algo importante aconteceria. Pediu a música. Seu pedido concorreu com outros dois... e venceu! O apresentador dedicou-lhe a música, mas... Ando... em seu entorpecimento feliz... meio desligado... Firmo caiu ... Eu nem sinto... vítima de um infarto fulminante... os meus pés no chão...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

extinção

sim, nestes ecos
- sinestésicos -
de fel e hematoma,

os animais sem ânimo,
as flores em coma.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Enfim...

... acordou assustado no meio da madrugada. Não, não ouviu nenhum barulho estranho e ninguém havia entrado na casa. Estranhos e frequentes eram os seus pesadelos. Mas as noites não eram piores que os seus dias: Vital não conservava empregos, perdera o último há dois anos e, talvez por isso, viu sua família desfeita. Sua mulher foi embora: voltou a morar com os pais. Levou os filhos – havia meses que não os via! – Entristeceu... bebia para esquecer os problemas e para criar outros, embora negasse o primeiro motivo e estranhasse o segundo. Definhava. Outro dia, levantou cedo, bebeu para curar a ressaca. Passou-lhe pelo pensamento procurar emprego e saiu, alcoolicamente decidido. Fechou a porta, certo de que a tinha trancado, e alcançou a alameda Esperança. Olhou para os dois lados e não percebeu movimento. Deu alguns passos e ouviu um barulho distante – pneus freando, talvez –, olhou na direção do ruído incômodo e viu de perto o vulto de um carro, que lhe estancou a fonte dos problemas. Não, o filme de sua vida não lhe passou pela cabeça. Não houve tempo.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Igual, mas diferente...

"Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos."
Carlos Drummond de Andrade
.

É carnaval no Brasil:
luzes cortam o céu;
agitação nas ruas;
multidão febril;
corpos ardentes;
emoções intensas;
delírio regado a suor.

Não é carnaval na Faixa de Gaza,
mas a descrição é a mesma.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O sonho não acabou

O sonho não acabou:
luxo e ostentação se constroem a custa da exploração alheia;

O sonho não acabou:
a mãe África continua à margem dos direitos humanos;

O sonho não acabou:
crianças são aliciadas e prostituídas cada vez mais cedo;

O sonho não acabou:
o trabalho escravo no Brasil transgride uma lei que
– talvez seja verdade – foi assinada a lápis;

O sonho não acabou:
religiões – em nome de deuses – motivam guerras há séculos;

O sonho não acabou:
faz-se terrorismo para combater o terrorismo;

O sonho não acabou:
políticas sociais se submetem aos interesses econômicos de minorias;

O sonho não acabou:
estamos transformando nosso planeta em um depósito de lixo;

O sonho não acabou...

Quando acordaremos desse pesadelo?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Poema Infantil 2

Universo com universo
é igual a duniverso.
verso e penso em você.
.
O poema salamê minguê.

domingo, 25 de janeiro de 2009

em trânsito

eu queria, sinceramente,
escrever um poema sobre
o novo acordo ortográfico,
mas estou sem idéia... ou ideia.

Sobre si mesmo

Seja isto apenas o começo;
e este outro já uma sequência;
o fim se aviste sem tropeço;
texto sem causa ou consequência.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

declaração à mineira

co cê, se eu tô,
co cê me posso,
no cê me roço.
Se nem... nem, sô!

se tô só, sô,
um trem esboço,
escrevo, coço...
xiii!... on co tô?!

escombros

torres são sangue, pó e lembranças;
um terror latente se ramifica
e as farpas da intolerância transitam livres pelo mundo;
a humanidade se aterroriza diante de exércitos ianques
e mísseis que – à procura do homem das cavernas –
exterminam, com precisão milimétrica,
crianças em seus berços;
lares perdem os seus valores familiar e imobiliário;
e, hoje, em Gaza, lágrimas, corpos e concreto
se confundem nos escombros da dor humana.

a-e-i-o-u ou vice-versa (o nascer do poeta)

repulsa o jogo: inclina ao verso, em parte;
estranha o jeito, e rima logro e lume;
reluta, foge – cisma – e pensa em arte,
mas trava, e fere, e risca, e corta impune.

debruça ao novo: atinge o apego de arte;
entranha o jeito: alinha fogo e lume;
empunha o mote, e singra no estro, e parte
ao sangue e ao verso, e a lira rompe impune.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

vácuo

vazio em vão

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Vingança

feito a faca, o corte seco
saca a carne, corta em toco,
ataca o talho, fica o oco,
seca, ensaca e põe no beco;

fere o beco e o verso a soco;
soca o corpo, o corpo é treco;
o naco em foco; da alma o eco...
corpo em caco, o crime é troco.

domingo, 11 de janeiro de 2009

poema monótono

... monótonos fomos...
... monótonos somos...

oh! como!... oh! como!...

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Ciência exata

Eu não entendia a existência,
porque o entendimento não existia.
Mas conheci você e entendi.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Um poema legendário

Importante: cada pequeno retângulo colorido corresponde a uma palavra, conforme as indicações da legenda. Faça as substituições e terá o mesmo poema em um formato mais familiar.




sábado, 3 de janeiro de 2009

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Coexista


Melhor cruzar os braços em um abraço
que deixar-se estar de braços cruzados.
O primeiro é relação, o outro: inanição.